A simbiose entre a natureza e o homem
Dos cerca de dois mil hectares que integram a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, 60% correspondem a zonas húmidas, sendo 30% sapais e 28% salinas.
Constitui uma paisagem única, um espaço vivo e dinâmico, moldado pelos gestos dos homens e cuja sobrevivência deles está dependente.
O sapal é o habitat característico da reserva Natural: vasta planície de solos de aluvião, dominada por vegetação halófita que suporta condições extremas de salinidade e encharcamento periódico pela água das marés .
Os sapais encontram-se tipicamente junto aos estuários dos grandes rios, constituindo sistemas intermédios entre o meio aquático e terrestre que albergam uma fauna e flora característica e diversa. Têm um elevado valor natural, sendo dos biótopos de maior produtividade do planeta. Significa isto que a biomassa produzida no sapal e transferida para a cadeira alimentar é muito elevada, possibilitando assim a presença de inúmeras espécies faunísticas que aqui encontram excelentes condições para o seu desenvolvimento.
As salinas, embora sejam um habitat artificial, são de grande valor para as aves aquáticas, permitindo um equilíbrio notável entre o aproveitamento económico de um recurso e a conservação de valores naturais.
Ao interesse paisagístico das salinas, acresce o facto de constituirem verdadeiros santuários de biodiversidade mercê das diferenças de salinidade, profundidade e formações vegetais que se encontram no seu interior, permitindo a coexistência, numa área relativamente confinada, de grande variedade de organismos da base da cadeira trófica. Este facto é explorado pelos grupos situados em níveis superiores, particularmente as aves, para as quais as salinas possuem ainda o atractivo de não sofrerem a influência do ciclo diário das marés, oferecendo-lhes portanto condições de alimentação e abrigo particularmente vantajosas.
Uma grande proporção das aves aquáticas que ocorrem na Reserva Natural concentram-se nas salinas, onde beneficiam de vastas áreas de alimentação. No período de Inverno e de migração pós-nupcial, podemos encontrar nestas áreas uma grande abundância e diversidade de espécies de patos, garças, cegonhas, colhereiros, flamingos, andorinhas-do-mar e limícolas, sendo estas últimas o grupo dominante.
No final da Primavera e início do Verão, a abundância de aves nas salinas diminui significativamente, mas a sua importância é então acrescida por albergar populações de espécies que dependem quase exclusivamente deste habitat para nidificar. É o caso da andorinha-do-mar anã e de limícolas como o Perna-longa, o Borrelho-de-coleira-interrompida e o Alfaiate. Esta última é uma espécie de estatuto vulnerável que tem nas salinas do sudeste algarvio o único núcleo reprodutor regular a nível nacional.
Pela importância dos seus valores naturais, esta Reserva Natural foram atribuídos a esta Reserva Natural diversos estatutos de protecção internacionais:
- Zona de Protecção Especial (Directiva Aves)
- Rede Natura 2000 (Directiva Habitats)
- Zona Húmida de Importância Internacional (Convenção de Ramsar)
Aspectos históricos e socio-económicos
Actividade milenar em Portugal, as primeiras referências à produção de sal marinho remontam ao séc. VIII a.c. com a introdução, pelos Fenícios, da indústria de conservas de peixe baseada na salga em tanques; as marés, praticamente inexistentes no Mediterrâneo, permitiram aqui, no Algarve Ocidental, a instalação de grandes áreas de salinicultura.
Foram, contudo os romanos a introduzir o reticulado em esquadrias na região de Castro Marim, onde também teria sido produzido o famoso “garum”.
Portugal sempre foi um país produtor e exportador de sal, tendo já sido esta uma das principais actividades económicas do país. O sal era, na Idade Média, produto de troca com todo o Norte da Europa e até com o Norte de África.
A salinicultura tradicional foi uma actividade humana estruturante do litoral algarvio, constituindo Castro Marim actualmente, o núcleo mais representativo, não só por constituir uma unidade geográfica bem definida, mas também porque nele persiste a maior comunidade de salinicultores artesanais.
O sector salineiro atravessou várias crises, ao longo dos séculos, motivadas por políticas desfavoráveis e crises económicas internacionais que levaram à falência das indústrias conserveiras. No entanto, é nos anos 70, que se assiste ao acentuado declínio da actividade, devido aos custos da mão-de-obra e ao sucesso da conservação a frio. O abandono de muitas unidades tradicionais, a sua reconversão em aquaculturas e explorações mecanizadas modelaram a nova paisagem.
Nesta paisagem, resistiu um pequeno núcleo de produtores sediado em Castro Marim, cerca de oito e dois ou três em Tavira e Olhão, movido pela “paixão do sal”, pelo apego ao território, por um trabalho feito a um ritmo próprio, pela subsistência sem patrão.
Com o objectivo de reactivar a salicultura tradicional, a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Stº António, implementou um projecto de revitalização das salinas tradicionais, cujo principal objectivo era a valorização do sal marinho tradicional através da obtenção de uma certificação assente na elevada qualidade do produto, baseada nas características naturais da área e na utilização de uma técnica artesanal.
No âmbito desta acção, foi criada a TradiSal – Associação dos Produtores de Sal
Marinho Tradicional do Sotavento Algarvio, fundada em 26 de Abril de 1999, com sede em Castro Marim, cujos principais objectivos são a valorização dos produtos resultantes da exploração tradicional das salinas, nomeadamente no que respeita à melhoria da qualidade da produção, certificação dos produtos, divulgação e promoção dos mesmos no mercado, organização e formação de salinicultores, recuperação das salinas tradicionais e das edificações adjacentes e implementação do eco-turismo na área de salinas.
Congrega um total de 30 associados, dos quais três são de Tavira, dois de Olhão e vinte e cinco pertencem a Castro Marim.
Os produtores com uma estrutura empresarial desenvolvida e com meios financeiros puderam já comercializar autonomamente os seus produtos, conquistando sectores importantes no mercado nacional e internacional; os pequenos produtores estão a organizar-se através da associação para a comercialização colectiva do sal e flor de sal.
Informações gentilmente cedidas pela Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António e Tradisal.
Fotos: Carlos Afonso, Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e VRSA e Câmara Municipal de Castro Marim